quinta-feira, março 10, 2011



a intrusa

se esconde
em mim
            uma outra
que me arranca
do que
            não quero

por momentos
       se apodera
            me parte

sai da superfície
- é só arte -

sem o peso dos medos
que tenho

cláudia gonçalves

10 comentários:

Ricardo Sant'Anna Reis disse...

Consegues fazer algo novo do tema da alteridade...sem perder o ritmo e a carga arrebatadora da poesia. Parabéns!

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Uma entrega! Eu lírico se compondo no desfazer-se de si pelo encontro com o outro. Uma fala suprema de quem se sabe tocada, acesa pela chama do outro que quer falar e fala, que quer dizer e diz, que quer voar e voa, que quer fugir e foge... nas entrelinhas, o encontro. Mãos dadas nos versos tecidos.

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Gaúcha, segue um poema em diálogo com o teu:

invasão



põe-se fora
de dentro de mim
um outro
que sou eu
e que me cala
do que quero

às vezes se faz notar
noutras
submerso
fixa as braçadas
quando superfície


- é só arte e vida -
- é só pulsar e devaneio -

e pesa sempre tanto quanto
sem sonhos
os medos afagam
aquilo que é desejo
e vazio...

Chico Araujo

Marisa Vieira disse...

Que beleza Cacau!
Amo sua sensibilidade, saudades desse cantinho, virei visitá-la mais vezes!
beijodamarisa

LuhOliveira disse...

Perfeito!

Cheiros e saudade!

Gérson Luis Santos disse...

Um poema maravilhoso! Aborda a existência e a compreensão do mundo através das relações humanas. Construir valores não só com nossas idéias mas com idéias diferentes. Tudo isto com muita sensibilidade e ritmo.

Joe_Brazuca disse...

esplêndido !

(tenho algo na mesma linha :
http://joebrazuca.blogspot.com/2010/11/sombras.html )

Sombras

tenho um lado vil
assim, meio servil
que faz muito alarde
porque é mais covarde

um lado falso
completamente canalha
que ajuda empurrar,
vestindo a mortalha,
o inocente do cadafalso

um lado que espezinha
sorri à navalha cortante
se achega sempre distante
astuto se acerca, se avizinha...

um todo tanto obtuso
de um sorriso escabroso
que usa sempre o abuso
e se lastima medroso

um lado que fede perfume
maquia com betume
disfarça a pele flácida
e se mantém plácido
ao cheiro do curtume

de pura peçonha
que baba na fronha
só tem pesadelos
de arrepiar os pelos
e finge que sonha...

um lado de unhas sujas
mãos sempre meladas
carimbos de garatujas
obras perenes e inacabadas

eternamente infame
que só se dá ao reclame
que se esconde na noite
acaricia com açoite
e provoca o enxame

um lado tanto gelado
que se esgueira de lado
com porte adequado
nunca certo, todo errado
excêntrico , marginalizado...

um lado soberbo
por roubado acervo
com perfil escuso
de empáfia sórdida
nunca concluso
e polidez mórbida...

tenho um estranho lado
meio tudo, meio nada
personagem disfarçada
sempre camuflado
meio assim, meio assado...

Aroeira disse...

muito booooommmm!

Aroeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Henrique Biscardi disse...

E essa, suponho, é nossa melhor parte. Sem máscaras, sem disfarses, sem pré-conceitos, de peito aberto, se jogando feliz, rasgando o ar, achando o mar, um mergulho, na alma. Lindo. Parabéns!!!